domingo, 27 de novembro de 2011

A ÚLTIMA SONATA

NÃO É DO MEU PERFIL ESCREVER CONTOS.
DEVO TER MENOS DE 10 AQUI GUARDADOS... MAS UM DELES EU GOSTO BASTANTE,
QUE É ESTE.
VOU COMPARTILHÁ-LO COM VOCÊS, PORQUE NÃO PRETENDO ESCREVER LIVROS DE
CRÔNICAS OU CONTOS.
SÓ ESCREVO QUANDO REALMENTE RECEBO UMA INSPIRAÇÃO.
ESPERO QUE GOSTEM.


A última sonata
"CAMMI"

Tinha uns 5 ou 6 anos, mas pela estatura dir-se-ia que não passava dos
2 ou 3. Talvez pela desnutrição, ou porque fosse pequenino mesmo. Se
achava recostado a parede de um casebre que consistia de um único
ambiente. Sentia fome, e sono, mas o frio não lhe permitia dormir.
Mesmo que o sol da tarde tornasse o dia mais claro, o vento trazia a
solidão do inverno. Não tardaria a cair a noite na pequena vila de
Jaquirana, situada em meio aos planaltos verdejantes dos campos de
cima da serra.
Quase não falava, talvez não o soubesse fazer, ou não o quisesse simplesmente.
Mantinha os olhos fixos no objeto que trazia nas mãos. Os uivos e
assobios gélidos que penetravam pelas frestas lhe congelavam os dedos,
mas não os olhos. Estes brilhavam deslumbrados. Não sabia como o
brinquedo havia chegado até suas mãos. Quando acordara ele já estava
ali.
Ainda não tivera coragem de tocar em tal maravilha. Não sabia se seria
capaz de reproduzir os sons que habitavam sua mente.
Talvez nem funcionasse, mas se tocasse descobriria. E temia a verdade.
Contara as teclas, as brancas, as pretas, e sorria enquanto os sibilos
estridentes dos gatos lembravam que era mês de agosto.
Há alguns metros uma senhora dormitava, o crochê pendendo-lhe das
mãos. Era sua avó. Ou talvez não fosse, mas era assim que a chamava.
Num esforço quase vital, chamou-a. Esta não lhe respondeu. Ainda com
o pequeno piano seguro entre as mãos aproximou-se da senhora e tornou
a chamá-la. Notou então que já não respirava.
Tornou ao seu canto frio, e quando as lagrimas lhe caíram sobre as
mãos, aquecendo-lhe os dedos, tocou As suas primeiras e últimas notas.
A única sonata.

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