Tomar uma postura diante de um assunto delicado como a eutanásia,
passa por questões filosóficas que, mesmo tendo sido feitas durante
milênios, continuam sem uma resposta plausível. Cada corrente
ideológica define o início e o fim da vida de acordo com seus próprios
conceitos. No entanto, nem mesmo a ciência pôde afirmar, de forma
definitiva, até hoje, onde se inicia e onde se termina a vida.
A eutanásia nos incita questões ainda mais profundas que estas. O
que é estar vivo? Sabemos, agora falando como estudante da saúde,
quais são os sinais vitais, que nos indicam o estado de vida ou morte
do corpo. Mas os seres humanos não se resumem a corpos, vivos ou
mortos. A capacidade que nos diferencia dos outros seres vivos não é a
respiração ou qualquer outro fenômeno fisiológico. O que nos torna
diferentes, ou que nos caracteriza fundamentalmente, é a capacidade de
rasciocinar.
Partindo deste princípio, poderíamos então dizer que estar vivo
significa estar em pleno uso de nossas faculdades mentais? Isso
excluiria do grupo dos vivos, todos aqueles que são incapazes ou
parcialmente incapazes de dominar o rasciocínio. Como podemos nós,
estabelecer o que é qualidade de vida, se para alguns inválidos, a
vida ainda é afortunada, e para outros, a vida se torna um castigo e o
corpo imóvel uma prisão?
Como portadora de uma deficiência, não incapacitante, posso afirmar
com toda certeza, que meus maiores problemas na vida, não tiveram
origem em minhas limitações. Ao mesmo tempo, consigo imaginar o quão
humilhante seja viver em um estado de tetraplegia. Condenado à
imobilidade e condenando outras tantas pessoas aos cuidados com um ser
humano imóvel, dependendo de alguém para tudo...
Um caso verídico, bastante interessante, é mostrado no filme "mar a
dentro". O protagonista é um rapaz tetraplégico que perdeu os
movimentos em um acidente no mar. Durante os 28 anos em que ficou
preso à cama, ele lutou pelo direito de morrer. Não obtendo auxílio
através da justiça da Espanha, país onde vivia, teve de contar com a
ajuda de amigos para envenenar-se. Planejou tudo de forma que nenhum
de seus colaboradores pudesse ser condenado pela sua morte.
Consigo entender a mente do personagem e o ajudaria em seu intento.
Não o mataria, de forma alguma... Mas o ajudaria com pequenos gestos,
por uma questão de justiça. Ele cometeria suicídio, de qualquer forma,
se pudesse fazê-lo sozinho. Este caso nem me parece ter relação com a
eutanásia, tendo em vista que ele mesmo decidiu e planejou a própria
morte. Mas o filme levantou um intenso debate a cerca do assunto.
Quanto aos casos em que cabe a terceiros decidir pela vida de
alguém, apesar de um pouco incerta, sou a favor. Não acredito que uma
pessoa, cujas funções fisiológicas sejam mantidas por aparelhos
médicos, ainda esteja viva. Há algumas décadas, quando não se podia
mantê-las vivas por estes métodos, elas morriam... Se não temos o
direito de tirar a vida, será mesmo que temos o direito de manter a
vida, a qualquer custo? Se interferimos na vida ao matar, também não
estamos interferindo na vida ao prolongá-la, quando esta não se mantém
por si só?
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